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Carrilhão

Sempre que as horas parecem se arrastar, lembro de uma antiga vizinha e seu carrilhão. Era uma senhora bem velhinha e solitária. O carrilhão tocava de quinze em quinze minutos, e sempre que tocava, parecia ressoar em seu coração. Sua feição ganhava um ânimo. Era como se o relógio despertasse alguma esperança lá dentro esquecida. Então ela dizia: que bom, já já é hora de dormir.

Dias beges

Não é a rotina. Mas a monotonia. Não são as pessoas. Mas os mesmos jeitos de pensar, fazer, falar. Não é a segunda-feira. Mas o sentido que se perdeu. Não sou eu. Mas os meus pensamentos.

É só pão com presunto e queijo

Mas apresentado como uma bela torta salgada, numa travessa bonita, ganha outro sabor. Sabor de fantasia. Não viaja.

Sem querer querendo

Quando a gente cresce, sem querer a gente esquece que brincar é verbo de infância. Que as pessoas não são bonecos. Que os carros não são de plástico. E seguimos errantes, errando, sempre em busca de algo que, fatalmente, acaba ou perde a graça ou, ainda, não está na mão. Aí, feito criança mimada, emburramos. Feito criança assustada, nos escondemos. Feito criança cansada, choramos. E, de novo, sem querer a gente esquece que tudo é mais leve do que parece.

Questão importantíssima

O alfabeto é um macho alfa com o nome de Beto?

Bilhete

A letra cursiva penteada para o lado, um papel improvisado e pronto: tudo o mais foi revelado.

Miguel

John Coltrane e suas Ballads ecoavam numa noite fria de outono, harmonizados pelo sabor agradável do vinho seco sobre a mesa. O lugar aconchegante, iluminado por algumas poucas luzes, mostrava sua silhueta atenta ao meu lado. Conversávamos em silêncio. A música era nossa mediadora. Mediava o toque das mãos, o contato dos braços e, por fim, o beijo. Me apaixonei por aquelas poucas horas. Por sorte (sua ou minha) estávamos lá.