Naqueles corredores minúsculos, às vezes cheio de flores novas ao chão ou de tempo quente em frente. Nesses dias, ela assiste, em cada passo, ao correr dos dias, das horas, dos minutos, dos segundos tão cansados e dispostos a correr atrás daqueles desejos tão presentes no futuro mas criados agora. É que praticar o agora faz efeito amanhã.
Em casa, um quadro dela me faz lembrar que há beleza mesmo na dor. Uma vida de sofrimentos acompanhada de um alento: cantar. No fim do túnel ela não viu a luz --ela ouviu a luz. Cintilando em formato de notas musicais. Billie Holiday não cantava. Sentia. E assim, só interpretava músicas que fizessem algum sentido em seu coração. I'll be seeing you é a canção de amor mais linda que eu já ouvi na minha vida. Será que ela cantaria tão lindamente se não fosse a dor que ela sentira? Sim, cantaria. Afinal, o que seria do amor sem a dor?
Nascemos de uma ligação forte de afeto, provando o quanto somos todos um só, mas imediatamente somos separados, provando o quanto somos únicos. E essas provações não param por aí, continuam ao longo de nossa vida. No primeiro dia de escola estamos lá novamente: os pais, do lado de fora do muro chorando, e a criança, do lado de dentro, esperneando. O corte acontece no momento em que os pais entregam a criança à professora. E como dói! Depois, a entrega da filha ao genro. Mais um corte daqueles, e cuja dor não é privilégio apenas dos pais. (Tenha certeza de que os filhos também sentem muito.) Em todos os casos há dor. Mas o corte é preciso, senão infecciona.
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