- mmMmmm? - Quê, amor? - mmmmMmmmMmmm... - Não, não estou entendendo, querido... - mmmmmmMmmmmMmmmMmmm!!!!! - Roberto, tá na hora de você cortar esse bigode!
Em casa, um quadro dela me faz lembrar que há beleza mesmo na dor. Uma vida de sofrimentos acompanhada de um alento: cantar. No fim do túnel ela não viu a luz --ela ouviu a luz. Cintilando em formato de notas musicais. Billie Holiday não cantava. Sentia. E assim, só interpretava músicas que fizessem algum sentido em seu coração. I'll be seeing you é a canção de amor mais linda que eu já ouvi na minha vida. Será que ela cantaria tão lindamente se não fosse a dor que ela sentira? Sim, cantaria. Afinal, o que seria do amor sem a dor?
Nascemos de uma ligação forte de afeto, provando o quanto somos todos um só, mas imediatamente somos separados, provando o quanto somos únicos. E essas provações não param por aí, continuam ao longo de nossa vida. No primeiro dia de escola estamos lá novamente: os pais, do lado de fora do muro chorando, e a criança, do lado de dentro, esperneando. O corte acontece no momento em que os pais entregam a criança à professora. E como dói! Depois, a entrega da filha ao genro. Mais um corte daqueles, e cuja dor não é privilégio apenas dos pais. (Tenha certeza de que os filhos também sentem muito.) Em todos os casos há dor. Mas o corte é preciso, senão infecciona.
Fazia calor lá fora, mas dentro de casa era frio. A campanha de agasalho acontecia ali, entre aqueles poucos metros quadrados. Buscava pelo seu calor, e a noite, como de se esperar, era ainda mais fria. Por maior que fosse a quantidade de meias, meus pés continuavam gelados. Dormia encolhida, e seu abraço me aquecia apenas nos sonhos fisiológicos. A estação era gélida e a natureza pedia paciência. Vai passar.
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